Travessia do canal da Mancha...

Travessia do canal da Mancha...

quarta-feira, 20 de abril de 2011

“QUE O AMOR SABE DAR”


Deixas na minha boca o teu doce paladar
Aromas agrestes, amarga palpitação
Que os olhos temperam, mesmo sem te tocar
Deixando nas mãos palpites do coração

Deixas no meu peito, mar crespado
Tempestade no sangue, amargo de chorar
No meu peito, incenso tombado
Lágrima que sobe, vértice de mar

Deixas no meu peito a voz que apaga
Grito de goela estrangulada
Jardim ardente, flor que propaga
Por uma vontade, em teu olhar regada

Deixas no meu peito lembrança tornada
Pelo instante que te soube provar
Aquando nos olhos rebenta a malvada
Daquela dor, que amor sabe dar.
***

segunda-feira, 11 de abril de 2011

“Ocupado”

 
Perguntei para viver
Descansei no fundo do fosso
Pedi a Deus para crescer
Logo ousado, jamais posso

Bati na porta cerrada
Logro maldito me chamou
Chamei a graça largada
Sangue precioso derramou

Para eles sempre falei
Da graça no corpo legada
Do mau que não lhes dei
E do valor, da voz calada

Só queria trabalhar
Sem saber que trabalhava
Quando longe ouvi pregar
A voz que a mim chegava.
***

“Escuro vertido”

Devendo ao peito, tombos de ansiada
Pendem braços, inspirações
Cabo de torre pendurada
Tristes vozes, lamentações…

Andava de escuro vertido
Sem leveza de neve urdida
Nem fios de sol derretido
Ombreira de porta vestida

Lá, chegavam as pernas tortas
- Fica onde estás que vou descer
Penas longas, vagas mortas
Cuidados para dissolver

Não se via por bandeiras
Nem avanços para comer
Só ganchos e choradeiras
Cordas novas para morrer

Assim ergueu, de uma vez
O vaso por merecer
No risco que o satisfez
De unhas e dentes a ranger.
***

“TERRAS SECAS”

Algures alguém agarra
O sonho perdido ao desdém
O toque,
Gemido de uma guitarra
Largado só, sem ninguém

Vim de longe, sem destino
Ao som do verso perdido;
Jeito doce, de menino
A sós, poema vencido

Que assim, fui ao contratempo
Sabendo pisar o caminho
Aquando, passo longe do vento
Porque fui paladar do destino

Lá viria a encruzilhada
Com tormentos e saudades
Vozes de chuva cansada
Em terras secas de vontades
***

“VINHAS TARDE”




Vinhas tarde, ao dia que adormecia
Teus lábios, roxos, desprezo amante
Vinhas tarde, tão tarde, que o dia vencia
De quem, amor, quer tanto

Vinhas tarde, tão tarde, que de ti fugia
A promessa feita, ao sentido fulgente
Tarde vinhas para fazer do dia
A noite veraz e decente

Promessas ao longo do tempo;
Airosidades que a mim fingias
Vinhas tarde, tão tarde com teu lamento
Tarde vinhas que não me vias

Vinhas tarde, meu amor
Quando tanto te queria
Tarde, tão tarde com tua dor
Chegada amarga e perdida

Vinhas tarde, tarde vinhas e vinhas
Com jeitos ferozes em flor
Vozes usadas, restos, vencias
Vinhas tarde, tão tarde amor.


***
Obrigado por me visitar
Abraço. 

“LUZ AO FUNDO”


 
 “LUZ AO FUNDO”


Aventura branca, símbolo de papel
Chama tão manifesta confissão
Que, habilidosa luz, ao fundo do túnel
Acolhe motivo, parte coração

Vénias experimentadas, ao silêncio convertido
Quando no peito se faz mar de empenho tempestuoso
Que logo descontento se haverá vertido
Por um avanço, relevo que pareça virtuoso

Selam-se cerimónias e leviandades
De poucas crenças, paixões escorregadias
Varrem-se memórias, nascem amizades
Com luz, no amanhã de todos os dias

Desperdício lhe mereça a insistência perdida
Abandonada ao campo, de gesto simulada
Se de Império, a palavra é vencida
Estátua esculpida, Tarefa sepultada

Luz ao fundo da veia, pela carne consumida
Luz ao fim, escorrida da santidade
Luz, que seja, sonho ou convertida
Luz que diga, enfim, Saudade.
***